Nossa História: O Especifismo no Brasil

Posted on 15/03/16 por

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O anarquismo no Brasil começou a se rearticular com o processo de abertura política nos últimos anos da ditadura militar. Em várias regiões do território nacional, rompendo com a clandestinidade imposta pelo regime político, foi possível a organização de grupos anarquistas de concepções diversas. Alguns destes grupos sentiram a necessidade de vincular o anarquismo aos movimentos sociais. Já no início da década de 1990, o grupo Mutirão, do Rio de Janeiro, já compreendia que o anarquismo deveria se desenvolver no seio do povo para conseguir alcançar seus objetivos finalistas de uma revolução socialista libertária.

Contatos com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) foram estabelecidos ainda em 1994. O aprofundamento desta relação se fortaleceu no ano seguinte com a fundação da Federação Anarquista Gaúcha (FAG). A FAU, por defender e praticar uma concepção do anarquismo militante organizado e combativo foi sendo interpretada, pelos grupos brasileiros em constante contato com a organização uruguaia, como a mais adequada para suas aspirações de organizar os movimentos sociais pela base, caminhando lado a lado, sem guiar e nem ser guiado por eles. Tendo assim a organização política como espaço de acúmulo das experiências conquistadas nas lutas dos movimentos sociais, sem correr o risco de perdê-las com as mudanças conjunturais.

Entre o final de 1995 e início de 1996, com o aprofundamento das relações com a FAU, realizaram-se debates entre vários grupos ácratas brasileiros. O resultado culminou na confecção, pela militância brasileira atuante no Uruguai, do documento “Luta e Organização: pela Construção Anarquista Brasileira”. Tinha por objetivo criar, no curto prazo, instâncias políticas organizadas em nível local, e a longo prazo constituir uma organização anarquista em nível nacional. Para isso, a força política agiria como grupo orgânico, reunindo poucas pessoas, no intuito de criar uma organização anarquista. Desta forma, o especifismo passou a ser propagandeado no Brasil, adaptado à sua realidade.

Em 1997, fruto deste processo, nasceu a Organização Socialista Libertária, uma organização anarquista de nível nacional, fruto de intensos debates por quase dois anos entre os grupos e organizações com afinidades ideológicas do anarquismo organizado. Os grupos e organizações estaduais se tornaram núcleos da OSL.

A OSL procurou concretizar as propostas da “Luta e Organização”. Em sua carta de fundação afirmou ser uma organização com caráter de minoria ativa; em outros termos, propunha atuar e propor ideias dentro dos movimentos e tendências em que participava, caminhando juntos, sem tornar-se vanguarda ou vir a reboque das organizações populares, objetivando imprimir um caráter revolucionário com o objetivo final de implantação do socialismo libertário.

Sua existência durou até o ano 2000, com avanços tanto na organização interna da própria OSL como em seus trabalhos nos movimentos sociais. Todavia, realizada uma autocrítica sobre o acúmulo da experiência da organização, foi possível perceber que a vontade de se organizar em nível nacional acabou sendo precipitada e a construção de uma organização nacional só poderia vir depois que as organizações locais estivessem com acúmulo organizativo local.

No ano de 1999 ocorreu a fundação da Resistência Popular (RP), um agrupamento de tendência que agregou anarquistas e militantes de outras vertentes ideológicas, dentro de uma mesma afinidade metodológica, para o trabalho nas diversas frentes em que atuava, a fim de potencializar os trabalhos de base. “O projeto nacional dessa tendência se difunde pelo Brasil, conseguindo agregar militância no Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, São Paulo, Pará e ter alguma atuação no Mato Grosso e em Goiás”. Com o processo da RP fortalecido, abriu-se novamente a possibilidade de recomeçar a construção de uma organização nacional, desta vez, a partir das atuações locais e regionais.

Como continuidade do processo organizativo iniciado em meados da década de noventa, foi criado, em 2002, num encontro na cidade de Belém, no Pará, o Fórum do Anarquismo Organizado (FAO). Propunha fortalecer as bases estruturais de uma organização com aqueles que viam a necessidade de se articular politicamente para um trabalho social de relevância, se diferenciando de pessoas que se identificam como anarquistas individualistas, antiorganizacionistas, ou contrários aos trabalhos nos movimentos populares. Também propôs o debate sobre anarquismo organizado no Brasil, tendo como norte a construção de uma organização nacional, e apoiou a formação de grupos anarquistas, aproximando-os e articulando-os; buscou desenvolver trabalhos e lutas nos diferentes níveis e frentes e articular-se com outras organizações, especialmente da América Latina.

Ao agregar grupos e organizações com níveis diversos de experiência no anarquismo e nos movimentos de base, o FAO partia do princípio que, para alcançar maior afinidade e unidade política entre os grupos, o mesmo deveria acontecer com as suas militâncias sociais e de sua construção teórica. Por considerar que o anarquismo é luta, era necessário construir uma organização anarquista baseada na unidade teórica e de ação, firmada “a partir de uma organização interna com base no federalismo político e na responsabilidade coletiva, o de construir uma organização revolucionária anarquista atuante nas lutas”.

Os dez anos de fundação do FAO foram comemorados com o congresso de fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), tornando-se um avanço significativo de organicidade. Todo este processo consistiu em vários passos. O primeiro foi a reaproximação, durante os anos de 2009 e 2010, para superar um impasse gerado por um conflito de 2003, responsável por separar o especifismo do Brasil em duas linhas que se desenvolviam em paralelo. De um lado, o próprio FAO e do outro, a FARJ e, mais à frente, as organizações que surgiram com seu apoio e influência. Superada esta etapa, a partir de 2010, avançou para a unificação do processo nacional.

Outro passo foi a mudança nos princípios do FAO, aprovada em 2010, quando os eixos organização e inserção social foram aprofundados. Foi decidido adotar o especifismo como forma de organização anarquista para os grupos e organizações do FAO, estabelecendo princípios políticos e ideológicos que definiam tanto o anarquismo, como essa opção organizativa. Com esse objetivo, o Encontro Nacional reformulou a definição do FAO estabelecendo seus princípios e a estratégia a ser defendida, revendo seus compromissos. A aprovação de uma Carta Orgânica possibilitou regular o funcionamento do FAO, permitindo um aprofundamento orgânico, estabelecendo direitos e deveres para os participantes dessa instância organizativa nacional.

Obteve-se o aprofundamento orgânico político e social ao estabelecer “um colegiado das organizações do FAO, com reuniões deliberativas periódicas a partir de delegações de base. Realizam-se visitas e reuniões periódicas entre as organizações, que permitem uma aproximação nas relações e um ganho para o projeto nacional. Busca-se fortalecer a formação política, com a realização de seminários locais, e a integração dos trabalhos sociais, com informes constantes e o início do estabelecimento de coordenações mais amplas para o trabalho de base em nível nacional”.

Enfim, no ano de 2012, foi estabelecida a deliberação para os trabalhos que teriam de ser realizados no intuito de fundar a CAB no congresso de junho desse mesmo ano. “Em nível político, a constituição da Coordenação Anarquista Brasileira, com nove estados sendo integrados e com outros em processo de articulação. Aprofundou-se a formação política, as relações nacionais e internacionais, a organização e a propaganda. Aprofundou-se a discussão de conjuntura e de programa. Em nível social, se estreitaram os contatos entre as frentes de trabalho social e se discutem caminhos comuns para a intervenção nos movimentos populares”.

A CAB assumiu como sua tarefa pavimentar o caminho para a construção de uma organização nacional do anarquismo especifista e no futuro tornar-se uma confederação anarquista brasileira. Em sua curta história nestes três anos, consciente dos grandes desafios diante de uma conjuntura com sensível aumento de forças reacionárias, continua seu caminho de luta lado a lado com as organizações específicas que a integra e com os movimentos sociais, rumo ao poder popular.

 

Para saber mais: https://anarquismosp.files.wordpress.com/2015/06/pmf-caderno04.pdf

 

Organização Anarquista Socialismo Libertário / Coordenação Anarquista Brasileira (OASL/CAB)
Março de 2016

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